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A pequena morte de Eleanor Rigby

Olho para trás.

Não posso. Não consigo.

Não resisto.

Lamento, é inevitável.

Olho para dentro de mim. Me sinto volúvel. E vazia. Outro lamento. Que frustração.

Enquanto caminho pelo meu destino. O mesmo destino que me foi traçado ainda no berço, não pude evitar. Às vezes, eu desvio, mas na maioria delas, eu volto. Sem saber se poderia ou não. Se quisesse ou não. Já havia saído.

Me isolo. Outro fator inevitável. Seguro uma lágrima e a garganta dói, se revira querendo gritar, querendo explodir. Me coloco à disposição dos meus sentimentos, como se eu não pudesse mais resistir a eles.

Minhas emoções. Ah, minhas emoções. Elas estão nubladas, assim como a minha mente.

Ando e subo mais alto. Pensei que não chegaria até ali. Há lembranças boas, mas quem se lembra quando as mais tristes se voltam?

Se revoltam.

Sou dominada.

Não quero lembrar. Não quero sentir. Não quero chorar. Não quero calar, não consigo sair.

Extravasar.

A teimosa lágrima sai, enquanto sinto o meu pé dançando e aproveitando o vento em sua sola.

O ar.

Leve. 

O ar leve, limpo e sem responsabilidades de segurar entre elas um destino. Uma vida. Meu corpo não aguentaria, mas a minha alma, isso sim, o ar aguenta.

Ah, a alma.

Minha alma.

Minha alma leve, límpida e sem o peso do meu corpo.

Fecho os olhos como se fechassem as cortinas de um teatro ao final do espetáculo. Abro os braços, como se fosse um pequeno pássaro filhote ansioso em alçar o seu primeiro voo para a vida.

Respiro fundo.

Tão fundo como se me preparasse para mergulhar, assim como um atleta pronto para seu salto contra a macia água sem fim.

Solto o peso do meu corpo.

Sinto a leveza da minha alma.

Calo.

A mente.

Sai o peso.

Sai o nublado.

Eleanor Rigby.

 

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No pé da escada

“Achava curioso as veias da mão dela saltadas e um ferimento de uma agulha que ela carregava há anos”

Ela já estava magrinha e os cabelinhos brancos. A gente costumava a conversar sempre. Lembro quando pegava uma caixa antiga dela cheia de papéis e fotos, e ela me contava a história de cada um: da irmã, do irmão, dos outros netos, dos sobrinhos. Eram fotos coloridas a canetinha ou então preto e branco.

Um dia nós estávamos sentada na escada de fora de casa. Ela era pequenininha e eu, com oito anos, já estava ficando maior que ela. Com os óculos bifocal, redondos, dava para perceber que era uma octogenária. Achava curioso as veias da mão dela saltadas e um ferimento de uma agulha que ela carregava há anos.

– Vó, me conta a história de quando a senhora conheceu o vô. – Pedi enquanto estava sentada ao lado dela na escada.

– Ele era muito bonito. Tinha um bigode bem feitinho e gostava de andar de terno e chapéu. – Ela disse saudosa. – Lembro que todas as moças viravam o rosto quando ele passava na praça. – E então imaginei os vestidos e cabelos dos anos 30. – Elas morriam de inveja porque eu namorava ele. – Ela disse com uma ponta de convencimento que me fez sorrir.

O meu pai passou pela gente e dei licença para ele passar.

– Fofocando, hein? – Ele disse brincalhão.

***

A escada ainda existe, a conversa não mais, mas ela ainda existe viva na minha memória.

Ontem vi a foto do meu avô na lápide… é vovó, a senhora não estava errada, ele era um rapaz bonito…

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Crônicas de uma estagiária em apuros (1ª ed.)

Tem aqueles dias que o destino resolve trabalhar na ironia com você. Quando você pensa que já passou por tudo, vem a secretária da recepção para te avisar que alguém quer falar com o repórter. Ou é uma denúncia ou é um leitor insatisfeito com algo. Às vezes, acham que jornalista é um tipo de deus grego que pode mudar tudo, mas não é bem assim. 

Trabalhar em uma redação de um jornal diário é aprendizagem todo o dia. Com quem falar? O que perguntar? Como abordar? Como deixar seu texto mais atrativo? Enfim, mas sempre há um espaço para um pouco de diversão.

Fazer reportagens de rua é outra aprendizagem, pois você conhece pessoas, e até um pouco das histórias delas. 2014 começou há pouco mais de duas semanas e a minha primeira pauta de rua também. E conheci uma senhorinha simpática e contadora histórias, até aí, outro ponto positivo.

Porém, seu sexto sentido ou por meio de uma leitura de mente, ela descobriu que o meu objetivo era desencalhar e… sim, desceu uma luz casamenteira nesta senhora, que não sei como eu consegui escapar com um caderninho, câmera e celular em mãos (às vezes acho que é muita coisa para poucas mãos).

Mas como essas personagens vimos uma vez na vida, não me atentei a esse fato até essa manhã, quando recebi a tal ligação da secretária avisando que tinha alguém me esperando. Me esperando? Quem? O que eu fiz?

Descendo as escadas pensei em como eu me desviaria de um tapa ou puxão de orelha, se pulava pelo balcão da recepção no maior estilo de filme de ação. Não, longe demais!

Voltando ao mundo real, encontrei a senhora casamenteira, exatos 15 dias após a proposta surreal feita em um sábado de muito calor e música alta, estava ela, acompanhada com o “pretendente” que ela achou ser a pessoa certa para mim. Em outras palavras: o filho dela.

A situação só não ficou mais constrangedora do que estava naquele momento, pois fiquei chocada, sem palavras. O encontro também não passou de cinco minutos, pois como todo mundo imagina, seria estranho ele querer da minha vida ali, parada e que estava sendo quase emparedada pelos dois em uma recepção, na qual pessoas entram e sai para anunciar em classificados.

Por um lado, acho que a crônica termina por aqui, mas por outro, isso pode dar muitas linhas de histórias nesse blog.

Até a próxima!